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Panorama do Setor Energético: Oscilação na Cemig e a Nova Estratégia Bilionária da BP

O mercado de energia apresentou movimentações distintas neste início de 2026, refletindo tanto as dinâmicas locais do cenário brasileiro quanto as grandes reestruturações globais. No Brasil, as atenções se voltam para a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), cujos papéis ordinários (CMIG3) encerraram o pregão de 14 de janeiro cotados a R$ 14,10, registrando uma leve queda de 0,21%. O volume financeiro movimentado, na casa dos R$ 706 mil, reflete a cautela dos investidores diante de uma gigante que, embora sólida, opera sob a constante expectativa de mudanças em seu controle acionário.

A gigante mineira e o cenário de privatização

Controlada pelo governo de Minas Gerais, que detém a maioria das ações ordinárias, a Cemig não é apenas uma peça chave na infraestrutura local, mas um player de peso nacional. Com presença em 22 estados e atendendo a mais de 17 milhões de consumidores, a empresa ostenta uma capacidade instalada superior a 6 mil MW e administra uma rede de transmissão robusta. A sua relevância ultrapassa as fronteiras, com papéis negociados nas bolsas de Nova York e Madri, além da B3.

O histórico recente da companhia mostra um esforço contínuo de eficiência. Desde o processo de reestruturação iniciado ainda em 2019 — ano em que reportou lucros recordes —, a empresa vem sendo preparada para uma eventual privatização. Essa pauta permanece no radar do governo mineiro como uma ferramenta crucial para o saneamento do déficit fiscal do estado, o que mantém o mercado em constante alerta para qualquer sinalização política que possa destravar valor para os mais de 150 mil investidores da companhia.

Mudança de rota na BP e impacto bilionário

Enquanto o mercado brasileiro monitora os passos da estatal mineira, o cenário internacional é marcado por uma guinada drástica na estratégia da BP. A gigante britânica do petróleo sinalizou que deve registrar baixas contábeis entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões no quarto trimestre, um movimento atribuído principalmente aos seus negócios de energia de baixo carbono. Este ajuste pesado reflete a nova diretriz da empresa: redirecionar os investimentos para o petróleo e gás, visando maximizar retornos, em detrimento da transição energética acelerada que vinha sendo pregada anteriormente.

Analistas do Citi apontam que parte significativa dessas perdas pode estar ligada à produtora de biogás norte-americana Archaea, adquirida pela BP em 2022 por US$ 4,1 bilhões. O reconhecimento dessas perdas não é um evento isolado, mas parte de uma sequência de ajustes financeiros que já somaram bilhões nos últimos anos, incluindo o impacto da saída da Rússia.

Dança das cadeiras e limpeza de portfólio

A reestruturação financeira vem acompanhada de turbulência na governança. Após a saída abrupta de Murray Auchincloss, a liderança da empresa passará por novas mudanças, com Meg O’Neill assumindo o comando em abril, substituindo a interina Carol Howle. Para o mercado, essa movimentação é vista como uma “limpeza de terreno” pela nova gestão, preparando a empresa para operar em um ambiente macroeconômico mais desafiador.

Como parte desse retorno às origens fósseis, a BP cortou drasticamente seus gastos anuais com negócios de transição energética — reduzindo de US$ 7 bilhões para um teto de US$ 2 bilhões. O plano inclui o desinvestimento na participação do grupo de energia solar Lightsource bp e o abandono de projetos de biocombustíveis e hidrogênio na Europa e Austrália. A joint venture de energia eólica offshore, Jera Nex BP, também sofreu reveses recentes, ficando de fora de leilões importantes no Reino Unido.

Pressão das commodities e redução da dívida

O cenário de curto prazo para a petroleira, contudo, permanece pressionado pela volatilidade das commodities. A empresa alertou que o enfraquecimento nas negociações de petróleo e a queda nos preços do gás devem impactar os lucros do quarto trimestre. O petróleo Brent, referência global, teve uma média de US$ 63,73 o barril no período, uma queda sensível em relação ao trimestre anterior, impulsionada por temores de excesso de oferta.

Apesar das dificuldades operacionais, a BP projeta uma melhora na sua estrutura de capital. A dívida líquida deve cair para o patamar de US$ 22 bilhões a US$ 23 bilhões até o final de 2025, auxiliada por um programa de desinvestimentos que superou as expectativas iniciais, totalizando cerca de US$ 5,3 bilhões. Esse valor exclui, inclusive, os US$ 6 bilhões provenientes da venda de participação majoritária na unidade de lubrificantes Castrol, sinalizando que o foco total da companhia está em sanear o balanço para enfrentar o novo ciclo do mercado de energia.