A inteligência artificial já alterou a rotina de grande parte dos profissionais ouvidos em pesquisas recentes, mas a organização do trabalho não avançou no mesmo ritmo. Um levantamento citado pela SAP indica que 88% dos empregados perceberam mudanças em seus cargos por causa da IA, e metade dessas transformações ocorreu sem orientação significativa de gestores ou empresas.

Uma investigação global mais recente reuniu 2.718 empregados, 500 integrantes da alta liderança, 60 executivos de recursos humanos e fundadores de companhias criadas com IA no centro do negócio. Os resultados apontam uma diferença entre automatizar tarefas e transformar funções. Ganhar velocidade em uma atividade não define, por si só, quem toma decisões, responde pela entrega ou usa o tempo liberado.

Esse contraste aparece na visão dos executivos: 72% disseram que muitas organizações que afirmam transformar o trabalho estão principalmente automatizando cargos existentes. A eficiência é mais simples de medir por meio de tempo, volume e redução de custos. Já a criação de valor exige rever prioridades, responsabilidades, fluxos de aprovação e critérios de desempenho.

O risco é que a IA retire algumas tarefas da agenda e, ao mesmo tempo, amplie o escopo do profissional sem esclarecer o que deixa de ser prioridade. Nesse cenário, o tempo economizado vira apenas espaço para novas demandas. A tecnologia aumenta a produção, mas o trabalhador continua com a mesma autoridade e passa a responder por resultados mais amplos.

A pesquisa propõe seis mudanças de desenho: ampliar a atuação de especialistas, tornar funções mais dinâmicas, aproximar equipes da execução, medir impacto em vez de volume, descentralizar decisões e incentivar autoliderança. Em um estudo experimental, participantes perceberam mais autonomia quando as decisões ficaram próximas de quem realizava o trabalho, embora funções dinâmicas também tenham sido avaliadas como mais desafiadoras.

O RH ocupa posição central nessa transição. Executivos estimam que quase metade das atividades da área poderá ser automatizada em cinco anos, proporção superior à esperada para o conjunto das empresas. Ao mesmo tempo, 75% concordam que será necessário reinventar a forma de medir, recompensar e desenvolver pessoas para que as organizações tenham sucesso na era da IA.

Para empresas, o passo prático não é apenas liberar uma ferramenta. Cada equipe precisa definir quais decisões podem ser tomadas com apoio da IA, quais resultados continuam sob responsabilidade humana, quando haverá revisão e como o desempenho será avaliado. Sem esse acordo, a adoção tende a ficar fragmentada e desigual. Com funções redesenhadas, a capacidade liberada pode ser direcionada a problemas mais complexos, aprendizagem e entregas de maior valor.