A NVIDIA Corporation deixou de ser apenas aquela fabricante de placas de vídeo para o público gamer faz muito tempo. Hoje, a gigante da tecnologia desponta como a verdadeira arquiteta do hardware e do software que sustentam a revolução atual da inteligência artificial. Para boa parte dos analistas de mercado, o ticker NVDA já garantiu seu lugar no seleto grupo de ações “para a vida toda”, aquele tipo de papel que você compra e segura na carteira. E o ritmo frenético de expansão dos negócios justifica grande parte desse otimismo institucional.
Um exemplo claro dessa tração global veio recentemente. No início de junho, a sul-coreana SK Telecom cravou que vai utilizar a plataforma DSX da Nvidia para levantar uma infraestrutura de nuvem de IA em uma escala absurda de gigawatts. A expectativa é que essa verdadeira fábrica de IA já entre no ar no ano que vem, dando um suporte pesado em serviços de inteligência artificial para o setor corporativo e industrial da Coreia. O foco da instalação será mastigar cargas de trabalho pesadas de inferência de treinamento e IA agêntica.
O próprio Jensen Huang, CEO da Nvidia, já deu a letra sobre o peso dessa parceria. Para ele, as redes de telecomunicações estão, na prática, se transformando na nova infraestrutura nacional de IA, justamente por serem a espinha dorsal que conecta pessoas, empresas e máquinas. E a aliança vai muito além da venda de servidores brutos. Ela se apoia em iniciativas que já estavam em andamento, incorporando o uso das bibliotecas Omniverse para rodar aplicações de gêmeos digitais diretamente nas instalações de semicondutores. A tele sul-coreana também está prestes a integrar o programa Cloud Partner da empresa, o que destrava acesso direto ao ecossistema de software de infraestrutura e ferramentas para desenvolvedores. As duas gigantes vão sentar juntas para desenhar a arquitetura da próxima geração de fábricas de inteligência artificial, focando forte em computação acelerada, novas tecnologias de memória e operações robustas de data center.
Mas fincar a bandeira na Ásia e ditar o ritmo da tecnologia global é só uma parte da equação. Não adianta ter a melhor tecnologia do mundo se você acabar tropeçando em burocracias ou regulações no seu próprio quintal.
É exatamente por isso que a recente movimentação da empresa nos bastidores de Washington D.C. diz muito sobre a sua estratégia de blindagem a longo prazo. Fontes de mercado relataram que a Nvidia acabou de trazer Bruce Andrews, um lobista veterano, para comandar de perto o seu departamento de assuntos governamentais. É uma contratação de peso. Para dar o contexto, Andrews chefiava essa mesma área de lobby governamental na rival Intel, respondendo diretamente ao ex-CEO Pat Gelsinger, e traz na bagagem a experiência de ter sido um alto funcionário do Departamento de Comércio na era Obama. Ter alguém com esse nível de trânsito livre nos corredores do poder mostra que a Nvidia quer manter o terreno preparado para qualquer mudança no clima político.
Diante de todo esse cenário estrutural e político, é inegável reconhecer a força e o potencial de longo prazo da ação da empresa. Só que, com o chapéu de investidor, a gente precisa olhar o quadro de forma mais pragmática. Entrar no papel da NVDA hoje significa assumir um risco de queda (downside) que talvez não compense o potencial de alta, dado o quanto a ação já andou. Se o objetivo é buscar assimetria real no mercado, existem outras empresas no setor de inteligência artificial que entregam uma margem de segurança bem maior.
Isso fica ainda mais evidente quando colocamos no radar a forte tendência de onshoring e o impacto que possíveis políticas de tarifas em um cenário de retorno da era Trump poderiam causar no mercado global de chips. Olhar para além da gigante óbvia e garimpar ações ligadas à IA que estão extremamente descontadas no curto prazo pode ser a jogada mais inteligente para quem quer surfar as mudanças macroeconômicas e geopolíticas que estão logo ali na frente.